Para a concretização de mais uma tarefa do nosso projecto, optámos por realizar uma entrevista via e-mail a um cardiologista da zona de Aveiro.
1. Qual a patologia mais comum?
Ao formularem a pergunta pensaram só nas doenças cardiovasculares no adulto.
Por simples dicotomia direi que há doenças cardíacas CONGÉNITAS e ADQUIRIDAS.
As doenças congénitas estão presentes desde o nascimento e resultam de alterações na formação do feto.
Podem ser muito graves, apresentando sintomas logo no nascimento ou nos primeiros dias de vida, (obrigando a intervenções cirúrgicas) ou pouco importantes do ponto de vista cardíaco e revelando-se no nascimento, na adolescência ou vida adulta.
Também por dicotomia se fala que até aos anos 50-60 predominavam as doenças infecciosas atingindo o coração. A febre reumática provocava alterações em especial nas válvulas mitral e aórtica, hoje corrigidas por cirurgia.
Com a revolução industrial e a melhoria das condições de vida, assiste-se ao aparecimento das mais comuns doenças da actualidade: Hipertensão arterial, aterosclerose e doenças isquémicas (angina de peito, enfarte cardíaco, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, arritmias) responsáveis pelo maior nº de óbitos no mundo ocidental.
2. Porque é que é importante a avaliação cardiovascular?
A avaliação cardiovascular permite
2 a - O despiste de pacientes ainda sem doença detectável.
2 b – Os pertencentes a famílias com incidência de mortes cardiológicas em idades ainda precoces.
2 c – Os portadores de factores de risco major. Tabaco, Hipertensão arterial, diabetes, hipercolesterolémia, etc, etc.
2 d – Os que já apresentam doença cardíaca.
3. Qual a percentagem (aproximada) de pessoas que morrem no país vítimas de doenças cardiovasculares?
Pode considerar-se que os óbitos por doença cardiovascular é de cerca de 40%.
4. Quais os agentes do quotidiano que aumentam o risco de doenças cardiovasculares?
Quase tudo o que comemos, bebemos, respiramos podem ser agravantes de doença cardíaca com maior ou menor intensidade. Há que reduzir ou abolir os mais tóxicos e agravantes:
Abolir o tabaco e estupefacientes
Reduzir sal, açúcar (doces). Comer vegetais, fruta; reduzir carnes vermelhas aumentando as brancas e o peixe.
Evitar ambientes poluídos (ar, ruído) e situações de stress.
5. Os factores imutáveis são os factores genéticos. Isso é uma condenação ou podemos fazer alguma coisa para evitar que isso aconteça nessas pessoas?
Á luz dos conhecimentos actuais diremos que ainda é uma condenação mas não poderemos ficar de braços cruzados.
Se nascemos homem ou mulher ou se somos mais jovens ou mais velhos não poderemos alterar estas premissas mas podemos adoptar estilos que nos irão dar mais e melhor vida.
6. A incidência do enfarte do miocárdio é de quatro a cinco vezes mais comum nos homens e pessoas com mais idade. Porquê?
Fundamentalmente pela protecção hormonal. Os enfartes em mulheres depois dos 50 anos começa a subir e é quase igual à dos homens a partir dos 60 anos.
Pensa-se que em mulheres jovens que tomam anticonceptivos e fumam o enfarte aparece mais cedo e mesmo antes dos 40 anos.
7. Qual o papel do coração em relação á morte súbita?
Com efeito o coração é um dos maiores, se não o maior culpado, da morte súbita.
O aparecimento de arritmias graves em “corações sãos” ou em patologias cardíacas já conhecidas e não medicadas são a causa mais frequente.
8. Com o avanço dos anos, é notável que a incidência de doenças cardiovasculares é cada vez mais numa idade precoce do que há alguns anos atrás.
Esse facto deve-se principalmente a quê? E porquê?
Em primeiro devido à tecnologia que nos ajuda a fazer diagnósticos mais precoces e depois ao estilo de vida (mau) com o início em idades muito jovens, meninice, de “mimos” altamente agravantes dessas doenças.
9. Em questão de tecnologias na saúde cardiovascular, como é que Portugal está? Está retrógrado ou avançado?
Bem para não dizer muito bem. Se a economia permitisse ter em todos os hospitais centrais tecnologia de ponta então estaríamos muito bem já que material humano não falta.
10. Que recomendações faz ao grupo sobre as doenças cardiovasculares?
- Não iniciar ou deixar de fumar
- Não iniciar ou deixar as bebidas alcoólicas já que as/os jovens cada vez mais cedo se iniciam e abusam (shots, cerveja).
- Não iniciar estupefacientes
-Reduzir doces, bolos, açúcar, sal
- Vigiar a tensão arterial pelo menos uma vez/ano. Se em duas ou mais determinações os valores forem superiores a 140/70 falar com o médico.
- Análises sanguíneas e electrocardiograma uma vez ano.
- Trocar o sofá, o comando da televisão, o telemóvel e as mensagens a cada segundo, por caminhadas ao ar livre, desportos aeróbicos, efectuados com regularidade, 3 vezes por semana.
Diminuir a ingestão alimentar global e reduzir o peso. A medida da cintura abdominal é um bom indicador na prevenção cardiovascular. Não esquecer que a anorexia é uma causa de morte nas jovens.
Temos a agradecer ao cardiologista Dr. Camões Sobral pelo apoio e ajuda que nos deu, pois sem o Dr. Camões não seria possível a realização desta tarefa.